domingo, 24 de dezembro de 2017


A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE

 


Algo inadmissível no século XIX, a História hoje se dedica ao estudo do Tempo Presente. Dentro desse recorte a Segunda Guerra Mundial, considerada o marco inicial dos estudos sobre o Tempo Presente[1], serviu como ponto divisório. No Brasil, e em outros países da América Latina, a História do Tempo Presente se dedica ao estudo das ditaduras militares, tendo como principais fontes os relatos das vítimas.

Frequentemente confundida com a História contemporânea – mesmo sendo campos distintos – a História do Tempo Presente só pode surgir após as releituras produzidas pela Escola dos Annales.

No século XIX, houve a necessidade de se transformar a História em ciência. A profissionalização da história e dos historiadores exigia uma disciplina mais rígida, que afastasse os amadores. Essa afirmação dos historiadores profissionais colocou como condição indispensável para se fazer uma história científica determinados pressupostos: a visão retrospectiva, a lisura das informações, o documento escrito, autêntico e sua análise intensiva. O documento e sua crítica eram assim essenciais para distinguir a história científica da história literária, os profissionais historiadores dos ensaístas, literatos, contistas e amadores.[2]

A separação entre passado e presente e as competências eruditas exigidas para trabalhar com os períodos recuados garantiram praticamente o monopólio do saber histórico aos especialistas. Além disso, os historiadores recrutados pelas universidades no século XIX eram especializados na Antiguidade e na Idade Média, e não tinham, obviamente, o Tempo Presente como campo de pesquisa. Pretendia-se, dessa forma, impor critérios rígidos que permitissem separar os verdadeiros historiadores dos amadores. O desprezo dos historiadores universitários pela história recente explica também o porquê da desqualificação dos testemunhos diretos.[3] Esse campo dos estudos históricos acabou se transformando em monopólio dos chamados historiadores amadores (jornalistas, sociólogos, entre outros).

Ademais, avolumavam-se obras desses profissionais não-historiadores, que as apresentavam como História, apoderando-se do ramo de trabalho do historiador e, por que não dizer, até mesmo obscurecendo o papel destes frente ao meio social.
A partir dos anos 1960, muitas dessas obras ganharam o mercado editorial de maneira expressiva[4], o que estimulou os demais jornalistas a produzir em demasia, portando-se como “donos da História”, causando celeuma no meio acadêmico.
Percebemos isso no Brasil com o sucesso estrondoso de obras como 1808, de Laurentino Gomes, que por não ser historiador é relegado por uma academia invejosa e medíocre.

Seguindo esse raciocínio, a delimitação de espaço de atuação e do campo de trabalho, objetivava o desligamento com o popularesco, o folclórico, o corriqueiro e o amador. A luta pelo reconhecimento da disciplina histórica exigia naquele momento um rompimento entre passado e presente, erudito e popular, profissional e amador, literatura e ciência. Com tal rompimento, o desprezo e a desqualificação dos testemunhos diretos, pelas fontes orais foi inevitável, ficando quase que exclusivamente nas mãos dos historiadores amadores já que o período recente, acreditavam eles, não exigia uma farta cultura clássica, nem o controle dos procedimentos eruditos do método histórico.

Uma das principais peculiaridades da História do Tempo Presente é a pressão dos contemporâneos, a possibilidade desse conhecimento histórico ser confrontado pelo testemunho dos que viveram os fenômenos que busca narrar ou explicar. Pois, uma das maiores características da História do Tempo Presente é a existência de testemunhas, o que serve para delimitar suas balizas móveis[5], uma vez que o Tempo Presente está sempre em mudança.


[1] FIORUCCI, Rodolfo. Considerações acerca da História do Tempo Presente. Espaço Acadêmico, ano XI, n. 125, out. 2011. p. 111.
[2] SANTOS, Jean Mac Cole Tavares. Atualidade da história do tempo presente. Revista Historiar, ano I, n. 1, 2009. p. 9.
[3] DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Marieta de Moraes. História do tempo presente e ensino de História. Revista História Hoje, v. 2, nº 4, 2013. p. 22.
[4] FIORUCCI, Op. Cit., p. 113.
[5] DELGADO, Op. Cit.

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