segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


NOS TEMPOS DO CABRAL




STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Porto Alegre: L&PM, 2008.

“Lá vem sua comida pulando”, a frase dita pelo alemão Hans Staden, diante de seus raptores tupinambás, foi, segundo Eduardo Bueno, responsável por Tarsila do Amaral decidir pintar seu quadro Abaporu, e Oswald de Andrade deflagrar o movimento antropofágico, marcos que eclodiriam na Semana de Arte Moderna.

Mas quem foi Hans Staden? Apesar de informações escassas sobre este alemão, sabe-se que foi um aventureiro e mercenário que empreendeu duas viagens ao Brasil, ainda na primeira metade do século XVI.

Tais viagens ao nosso país são o tema de seu relato, uma história verídica que conta a descrição de uma terra de “selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, [...] desconhecida antes e depois de Jesus Cristo”, segundo as próprias palavras de Staden.

O livro é antes de tudo um relato de fé, pois sendo Staden, um cristão que se deixou apanhar por índios antropófagos, é frequente, em sua narrativa dos fatos vividos, a esperança depositada em um auxílio celeste, espiritual, metafísico, ou como você preferir chamar.

Por outro lado, não é difícil tomar seu lado, frente a incansável ameaça de poder ser morto e devorado a qualquer momento pelos (como ele próprio chama) “selvagens” e “cruéis” tupinambás, que fariam os defensores do evolucionismo cultural bradarem suas teorias com uma certeza cristalina.

O livro  A sociedade antiga de Lewis Morgan seria publica apenas em 1877, mas o relato de Staden passaria muito bem por um estudo sobre evolução cultural. De um lado, um cristão europeu, temente a Deus, responsável pela segurança de sua vila, imbricada no meio do inferno verde da mata e defensor da coroa real; e do outro lado, os selvagens comedores de carne humana.

De qualquer forma, dentro do relato sobre as duas viagens ao Brasil, todo o tom macabro é referente à última. É bem provável que, depois de toda a carga de temor e adrenalina presente, o jovem Staden não se dispôs a fazer uma terceira. Vai que a sorte muda...

Outra característica que chama a atenção é o fato de portugueses e tupinambás, apesar de se digladiarem frequentemente, serem capazes de realizar negócios, como exposto no capítulo 38.

Era comum os portugueses irem também para as terras de seus inimigos, embora viajassem bem armados, para fazer comércio com eles. Eles dão aos selvagens facas e foices em troca de farinha de mandioca, que os selvagens têm em abundância em algumas regiões (STADEN, 2008, p. 77).


A narrativa de Staden dá margem para uma avaliação de costumes, tanto por seus habitantes naturais como por seus invasores, em uma terra ainda inexplorada, precária e carente.

Apresenta uma leitura leve com seus capítulos curtos de narrativa clara e ágil, sendo obra obrigatória a quem se propõe desvendar nuances de um Brasil ainda desconhecido e misterioso.




Conheça a história do BRock, acessando http://hailrock.blogspot.com.br/


Nenhum comentário:

Postar um comentário