domingo, 4 de setembro de 2016

CENAS ANTERIORES A 1964: JOÃO GOULART.

Com a renúncia de Jânio Quadros (ver post anterior), João Goulart, que estava em Cingapura, liderando uma missão pela Europa Oriental,  União Soviética e China, tornava-se o novo presidente do Brasil. Entretanto, as forças políticas conservadoras, incluindo-se aí os generais das Forças Armadas, não poderiam permitir que alguém ligado ideologicamente ao comunismo assumisse o comando da nação.

João Goulart havia sido ministro de Getúlio Vargas, acusado de populismo por ter se envolvido na polêmica da duplicação do salário mínimo em 1954 e fora eleito vice-presidente da República pela legenda adversária do presidente eleito, Jânio Quadros.
Pela constituição, o vice deveria assumir, no caso de vacância do cargo, e assim se iniciou uma campanha nacional em defesa da constituição, liderada por Leonel Brizola, cunhado de Goulart.
A oposição, aproveitando-se da situação, aprovou uma emenda constitucional, de autoria do deputado Raul Pilla, mudando o regime de governo de presidencialista para parlamentarista, com eleição indireta pelo Congresso Nacional.

João Goulart, que segundo Elio Gaspari, era dono de uma “biografia raquítica e um dos mais despreparados e primitivos governantes da história nacional”, desembarca em Porto Alegre em 1. de setembro, tendo que concordar com as mudanças impostas após a renúncia de Quadros, numa tentativa de se evitar um choque maior com as Forças Armadas.
Os meses que se seguiram foram de grande tensão política, e em 6 de janeiro de 1963, foi realizado plebiscito popular sobre o regime de governo, vencendo o presidencialismo, defendido por Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, por larga diferença.
Em meio a toda essa turbulência política, a inflação avançava e a balança comercial encolhia.
João Goulart, definitivamente presidente da República, em meio a problemas sociais e econômicos já começava a sonhar com a reeleição, diga-se de passagem não permitida pela constituição vigente.
As tensões aumentavam com greves e revoltas dentro da própria Marinha, por exemplo. Goulart havia tentado, em outubro, impor um estado de sítio, como manobra para seu próprio golpe de estado (com intervenção nos governos de São Paulo, Guanabara e Pernambuco), o que foi combatido pela própria base aliada.
Em 13 de março de 1964, os partidos aliados do governo, sindicatos e movimentos sociais conseguiram reunir mais de 300 mil pessoas no comício da Central do Brasil, onde João Goulart defendeu a reforma agrária e atacou os militares.
Selava ali o seu destino, pois em resposta, a Igreja Católica e as forças conservadoras organizaram a Marcha com Deus pela Família no dia 19 de março, levando 400 mil pessoas às ruas e fomentando o desejo dos militares de tomarem o poder e ver João Goulart pelas costas.
Hasta la vista, baby.

Para ler mais:
NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro. São Paulo: Atual, 1998

GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

VILLA, Marco Antonio. Ditadura à brasileira – 1964-1985: A democracia golpeada à esquerda e à direita. São Paulo: LeYa, 2014.

Sugestões para marceloferraz.cd@gmail.com