quarta-feira, 27 de junho de 2018


CULTURA, ETNOCENTRISMO E DETERMINISMO BIOLÓGICO

 

Segundo Laraia (2006), Heródoto se surpreendeu com o fato dos lícios tomarem o nome da família da mãe, e não a do pai, como os gregos. Para esses últimos, todos aqueles que não fossem seus iguais não passavam de bárbaros.
Da mesma forma, Tácito, romano e de visão tão etnocêntrica quanto Heródoto, achava extravagante a fato dos germânicos se satisfazerem com apenas uma mulher.
Marco Polo descreveu os costumes dos tártaros como um povo que as mulheres tomam à frente dos interesses da casa para que os homens se dediquem ao que interessa: a caça, a guerra e a falcoaria.
No Brasil colônia, o padre José de Anchieta relatava as peculiaridades dos tupinambás: selvagens antropófagos.
No século XVI, o filósofo francês Jean Bodin, desenvolveu a teoria que os povos do norte tem como líquido dominante o fleuma, enquanto os do sul são dominados pela bílis negra. Por isso, obviamente, os nórdicos são fiéis, leais e pouco interessados sexualmente. Enquanto isso, os povos do sul são maliciosos, engenhosos, abertos e mal adaptados para as atividades políticas.
De acordo com o autor, são velhas as teorias que atribuem capacidades específicas a determinados grupos humanos, ou mesmo às diferenças do ambiente geográfico.
Boa parte dessas teorias, que foram desenvolvidas no final do século XIX e no início do século XX, ganharam grande popularidade. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington, em seu livro Civilization and Climate (1915), no qual formula uma relação entre a latitude e os centros de civilização, considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso.
No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo.
Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture, que "tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade".
Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.


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