segunda-feira, 17 de outubro de 2016

HISTÓRIA E ROCK NO BRASIL DOS ANOS 1980.

A música pode ser uma ferramenta historiográfica de extrema importância para que possamos entender melhor o contexto social, cultural e, sobretudo, político de determinado recorte histórico. Prova disso é a grande quantidade de trabalhos acadêmicos relacionados à música, como se pode ver nas referências abaixo.


Em nosso país, por exemplo, na década de 1980, o Brasil vivia os últimos momentos da ditadura militar. O regime já mostrava sinais de cansaço e o modelo econômico proposto por Delfim Neto já não era capaz de influenciar a opinião pública, muito pelo contrário, vivíamos uma das piores crises econômicas de nossa história. O “milagre econômico” dos anos 1970 tinha dado lugar à “década perdida” dos 1980. As manchetes dos jornais estampavam em letras garrafais inflação, desemprego e recessão.
Na Europa, especialmente na Inglaterra, os jovens haviam rompido com as convenções sociais ao darem surgimento ao movimento punk, onde a ordem era  “do it yourself”, ou faça você mesmo, com músicas de dois ou três acordes criadas e executadas por músicos que não sabiam tocar e cantores que não sabiam cantar. O que valia mesmo era fazer o que se tinha vontade, mesmo sem talento ou conhecimento erudito para tal.
Esse movimento vinha de encontro ao virtuosismo característico do rock progressivo que reinava na época, com acordes super elaborados e canções longas que criavam um clima intimista, onde o público absorvia o som, mas não participava. Diferente do punk, onde não havia virtuoses, pois praticamente ninguém sabia tocar nada e o público interagia completamente com os roqueiros, subindo ao palco e transformando as apresentações em total balbúrdia.
Óbvio que esse movimento daria frutos em terras tropicais. E deu. A juventude bem nascida, “burguesa”, que tinha acesso a discos e revistas, começa a incorporar o espírito punk, e, mesmo sem saber o que era um lá maior sustenido, começa a formar grupos de rock entre os colegas do colégio e a tocar nas garagens dos condomínios.
A repressão política e os problemas sociais seriam o tema mais comum dessa nova música que começava a se desenvolver no Brasil. Além disso, o pessimismo diante da incerteza do futuro, as frustrações com a família e o protesto contra o Estado formaram a via comum das músicas da época, através de bandas que surgiam principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, capital política de onde vieram Plebe Rude e Aborto Elétrico.
Em 1985, a banda Paralamas do Sucesso já era detentora de um certo reconhecimento nacional. Seu vocalista, Herbert Viana foi procurado pelos integrantes da Plebe Rude, banda de forte influência punk, assim com o Aborto Elétrico. Desse encontro surgiu “O Concreto já Rachou”, um marco no rock brasileiro, que entre outros questionamentos, com reminiscências de João Cabral de Melo Neto, perguntava:
Com tanta riqueza por aí
Onde é que está?
Cadê sua fração?               
A  banda Aborto Elétrico, que tinha como vocalista um tal de Renato Russo, se fragmentou e deu origem às bandas Legião Urbana e Capital Inicial. As bandas originadas da rupura do Aborto Elétrico mantiveram o discurso panfletário contra o Estado opressor, que caminhava para os seus últimos dias.
Logo a ditadura militar se extinguiria e veríamos surgir a Nova República.
Mas, isso é uma outra história.

Para aprender mais, lendo:
RIBEIRO, Júlio Naves. Lugar nenhum ou bora bora? São Paulo: Annabele, 2009.
RAMOS, Eliana Batista. Rock dos anos 80: A construção de uma alternativa de contestação juvenil. 2010. Dissertação para obtenção do título de mestre em História Social. PUC: São Paulo. 2010.
PRADO, Gustavo dos Santos. A juventude dos anos 80 em ação: música, rock e crítica aos valores modernos. revista Desenredos - ISSN 2175-3903 - ano III - número 10 - teresina - piauí – julho agosto setembro de 2011
ROCHEDO, Aline do Carmo. Os filhos da revolução: A juventude urbana e o rock brasileiro dos anos 1980. 2011. Dissertação para obtenção do título de mestre em História Social. UFF: Niterói. 2011.
OSTERNO, Maria do Livramento Rios. A canção engajada no anos 80: O rock não errou. 2009. Dissertação para obtenção do título de mestre em Linguística. UFC: Fortaleza. 2009.
RANGEL, Carlos Roberto Rangel; TRINDADE, Luane Nunes. Rock: Cultura política e movimentos sociais. 2013.
GAMA , André de Araújo; MACIE, Elisângela. História e Música: um Brasil dos anos 80. 2010. http://www.webartigos.com/artigos/historia-e-musica-um-brasil-dos-anos-80/60704/

Para aprender mais, ouvindo no volume máximo:
LEGIÃO URBANA. Legião Urbana. produtor: Mayrton Bahia. EMI, 1985. LP
PLEBE RUDE. O concreto já rachou. produtor: Herbert Vianna. EMI, 1986. LP.
CAPITAL INICIAL. Capital Inicial. produtor: Bozo Barreti. Polygram, 1986. LP.

Para aprender mais, assistindo:
Somos tão jovens. Direção: Antônio Carlos de Fontoura. Brasil: Imagem Filmes, 2013. 104 min.

Um comentário:

  1. Importante. E quanto ao professor, ainda que não seja um músico, é importante ter informações básicas acerca dos estilos musicais( timbres, ritmos etc) e fazer análise das letras.

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