segunda-feira, 31 de outubro de 2016


CRONOS E A HISTÓRIA


RESENHA

REIS, José Carlos. O tempo histórico como “representação”. In:____ Teoria & história : tempo histórico, história do pensamento histórico ocidental e pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2012. cap. 1.
                                                                                                                     Marcelo Ferraz


José Carlos Reis, no primeiro capítulo de seu livro Teoria & história, intitulado O tempo histórico como “representação”, propõe uma discussão sobre o tempo histórico e levanta uma série de pontos de vista e análises sobre as diferenças de concepções dentro da historiografia e da linearidade temporal da vida humana.
O tempo está na natureza ou está na consciência? Como podemos definir presente, passado e futuro? Com essas indagações, Reis procura inculcar em nossas mentes a importância da definição de temporalidade, e de lá tentar extrair suas definições.
De acordo com o autor, o relógio mecânico surgiu na vida do homem entre 1300 e 1650, mudando completamente a forma como as sociedades começaram a se relacionar com o tempo, e filosofa quando nos diz que o tempo  seria a constante redução do ser ao nada, pela descontinuação e sucessão do ser. O próprio Aristóteles entra na discussão. Afinal, como falarmos de um ser que é e não é? Ou, que foi e não é mais? Não seria essa a própria essência do tempo?
E, talvez a mais importante incógnita, quando termina o passado e quando começa o presente?
Segundo o autor, o passado é a única dimensão que pode ser objeto de conhecimento, não sendo mais a negação da existência, mas a afirmação do ser. O presente é o ponto de partida de toda representação do tempo, dividindo-o em passado e futuro, sendo este último o portador tanto do medo da finitude, quanto da esperança de ser.
Assim, poderíamos dizer que todo trabalho de história é uma organização temporal, com seus recortes, ritmos, periodizações e sequências. Narrar uma história não é (re)vivê-la, mas, uma operação cognitiva, que exige a teorização.
Nessa perspectiva, o tempo histórico se confunde com a dimensão do passado das sociedades humanas e a história é “o estudo dos fatos humanos do passado”.
Os Annales combateram a historiografia tradicional sustentando que o passado e o presente se relacionam determinando-se reciprocamente. Assim, o historiador deve partir do presente ao passado e retornar do passado ao presente. Por seu método retrospectivo, o passado só é compreensível se o historiador for até ele com uma problematização suscitada pela experiência presente e bem formulada racionalmente.
Com isso, surge-nos o termo “tempo-calendário”, indispensável à vida dos indivíduos e das sociedades e essencial ao historiador, detentor de um evento fundador, que abre uma nova época, a partir do qual se cortam e se datam os eventos. Desse ponto pode-se percorrer o tempo em duas direções: do presente ao passado, do passado ao presente.
O tempo-calendário não é só astronômico, porque o ponto inicial é um evento que teria rompido com uma época e aberto outra. No Ocidente, este evento divisor de épocas foi o surgimento de Cristo e todos os eventos são “datados”, inseridos no tempo-calendário, acompanhados da informação a.C. ou d.C.
Além disso, as datas não podem deixar de ser sempre as mesmas para qualquer historiador, pois a datação em história é realista e consensual. Assim, o primeiro esforço do historiador é produzir uma sucessão rigorosa dos eventos, onde, o conhecimento das datas supõe a compreensão de sucessões e  sincronismos.
Segundo Reis, o tempo histórico é representação intelectual, por não ser uma reconstituição dos fatos tal como aconteceram; e uma representação cultural, por ser fruto de uma época determinada.
Daí partimos para as diferentes representações temporais de acordo com algumas concepções. Os gregos acreditavam no movimento circular, contínuo e infinito, não revelando o tempo, mas a eternidade, de onde puderam criar a história porque viram que alguns aspectos dessa experiência temporal tinham direito à eternidade e poderiam ser repetidos.
Diferentemente, os judeus deram ao tempo a imagem de uma linha, onde, no futuro haveria a salvação e o fim do sofrimento, com o retorno do messias.
A partir do século XVIII, a profecia cristã torna-se utopia. A idéia do progresso generaliza-se A esperança escatológica cede lugar à confiança no futuro terrestre. O apocalipse cede lugar à utopia, a modernidade rompe com o passado e se abre ao futuro.
Reis nos conta que o grande evento que definiu nossa época ocorreu em 1989, com a queda do muro de Berlim, representando o fim do projeto comunista.
Com isso, vivemos uma época veloz, entretanto, com pretensões de eternidade, com a busca vertiginosa de inovações e lucro e com a tragédia do desemprego, sem futuro para os homens.
Em nossos dias, o presente deseja se olhar como se fosse já histórico e volta-se sobre si mesmo para controlar a imagem que o futuro lançará sobre ele quando for passado.
Como exemplo, Reis cita o 11 de Setembro, que se dá a ver enquanto ocorre, acontecendo sob as câmeras e os olhares do mundo todo. O presente fazendo-se história para o futuro.

Propondo uma reflexão sobre a conceituação e sua relação com a história, Reis lança luz sobre um tema tão complexo e misterioso, que faz o homem se por a pensar desde muito, em um amálgama de história e filosofia, que extrapola conceitos concretos. 

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